quinta-feira, junho 22, 2017

O Manuscrito de Kirbet - A rebelião em Urântia


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Segue uma palinha:

Fernando mastigava pães de queijo gordos na padaria da esquina. Ao mesmo tempo, lia a apostila deitada sobre a bancada de vidro. Não podia se desgrudar dela agora. Raspou uma mão contra a outra para tirar as migalhas, passou o guardanapo nelas e na boca, e, desinstalando-se, agradeceu o atendente. Caminhou alguns passos com os olhos baixados na apostila. Ninguém esbarrou nele. Então, guardou-a na bolsa e subiu para o escritório.

“O libelo de Lúcifer dizia que não tinha pai do paraíso algum, que era tudo uma sacanagem dos anciãos dos dias para se imiscuir em seu governo soberano. Deve ser muito difícil para um ser incrível como Lúcifer ver um bostinha como eu tendo a chance de ir mais longe que ele, de ver o pai e depois voltar. Lúcifer não tem esta oportunidade, está preso a seu universo, será que se sente diminuído, rebaixado?, me pergunto. Com certeza se sente rebaixado. Van diz que a auto-admiração dominou Lúcifer. Ele era bom demais para não saber de algo ou para ser supervisionado de fora.

"Você é livre", dizia-me Caligástia. “Livre.” Me senti cheio de vigor, questionei quem estivesse entre mim e todos meus desejos. Era o que me eriçava os sentidos ouvindo Caligástia. Abbadon estava conosco, ele traduzia o "mestre", como o chamava, realçando melodicamente suas propostas. Sentia sua presença me envolver. Era uma sensação de poder, de liberdade e de cansaço.

De descontentamento por não ser pleno, absoluto. Aí senti um vago desapreço por Deus, por Michael.
Estava Caligástia certo? Estavam eles entre mim e a exaltação de mim mesmo, entre mim e a realização total de meus desejos?


Segui para casa desalentado e tonto, tropeçando em mim, chutando pedrinhas. Com raiva, me sentindo estranho. Eles queriam continuar na semana seguinte.”

Os três tipos de poder nas organizações

Publico aqui minha monografia no curso de administração.

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO
UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ







OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES








DANIEL HENRIQUES LOURENÇO

















RIO DE JANEIRO
05/2017


DANIEL HENRIQUES LOURENÇO









OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES








Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Administração do Curso de Administração, da Estácio de Sá.

Orientador: FERNANDO QUERUBIM SARDINHA













RIO DE JANEIRO
05/2017


OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES





Daniel Henriques Lourenço
Matrícula: 2013.01.95790-9
E-mail: danielhenlou@gmail.com









RESUMO:

O presente artigo visa a analisar os três tipos de poder nas organizações, segundo a teoria de Amitai Etzioni. As organizações militares, empresariais e religiosas serão analisadas à luz destes poderes que as caracterizam. Os poderes coercitivo, utilitário e simbólico perpassam e norteiam a atuação da atividade dessas organizações. O poder coercitivo se caracteriza pela aplicação do uso da força físico-psicológica como ameaça, o poder utilitário deriva da produção de bens e serviços, e o poder simbólico é capaz de conduzir o imaginário popular pela produção de símbolos.  A partir destes três tipos de poder, outras organizações serão analisadas.






Palavras-chave: Poderes, Organização Militar, Organização Empresarial, Organização Religiosa, Etzioni.


1 INTRODUÇÃO

Este trabalho pretende analisar e comparar três tipos de organização, as organizações militares, religiosas e empresariais, e os tipos de poder que as caracterizam.
Em que as organizações militar, empresarial e religiosa se diferenciam, por que são estruturadas de maneira diferente em função de seus objetivos declarados?
Quanto ao objetivo, a pesquisa é descritiva-explicativa. Ela deseja identificar a razão das diferenças entre organizações militares, políticas, empresariais e religiosas, o que envolve sua a descrição.
Quanto à abordagem, a pesquisa será qualitativa, porque analisará as características, significados, valores de diferentes tipos de organização, não tem interesse, por exemplo, em levantar o número relativo dos diferentes tipos de organização, porque não é seu objetivo.
Quanto ao procedimento, a pesquisa será bibliográfica. Serão pesquisados livros sobre o tema dos tipos de poderes predominantes nas organizações.
O objetivo final do trabalho é entender a diferença entre as organizações militar, política, religiosa e empresarial.
Os objetivos específicos são compreender quais as funções eminentes das organizações militar, política, religiosa e empresarial; como elas são estruturadas, com base nas funções que desejam desempenhar; e quais os desvios de sua função a que ficam tentadas.
Os poderes coercitivo, utilitário e simbólico perpassam e norteiam a atuação da atividade dessas organizações. O poder coercitivo se caracteriza pela aplicação do uso da força físico-psicológica como ameaça, o poder utilitário deriva da produção de bens e serviços, e o poder simbólico é capaz de conduzir o imaginário popular pela produção de símbolos.
Serão analisadas também organizações intermediárias, que combinam elementos-tipos das organizações militar, empresarial e religiosa, como partidos políticos, que mesclam elementos das organizações militar e religiosa, e empresas de segurança, cujo objetivo, cuja utilidade, é justamente proporcionar a segurança de quem busque seu serviço.


2     REFERENCIAL TEÓRICO

Amitai Etzioni (1976) assinala os poderes coercitivo, utilitário e normativo como os meios de adesão e obediência que a organização desenvolve para angariar membros, participantes e colaboradores.
“Os meios de controle, aplicados por uma organização, podem ser classificados em três categorias analíticas: física, material ou simbólica. A utilização de uma arma, um chicote ou uma prisão é física, pois atinge o corpo. (...) O controle baseado na aplicação de meios físicos é considerado como poder coercitivo”.
As recompensas materiais consistem em bens e serviços. (...) A utilização de meios materiais com a finalidade de controle constitui o poder utilitário. (...).
(...) A utilização de símbolos com a finalidade de controle é denominada poder normativo.” (ETZIONI, 1976, pp. 94-95)
Esses poderes são predominantes nas organizações militar, empresarial e religiosa.
            Carroll Quigley (1983), igualmente, salienta os três aspectos do poder, que são a força, a riqueza e a persuasão.
“O poder é simplesmente a habilidade de obter a anuência da vontade de outra pessoa. Algumas vezes, isto é sintetizado como a habilidade de obter obediência, mas este é um nível bastante mais elevado de uma relação de poder. Estas relações podem operar em vários níveis, mas podemos dividi-los em três. No mais alto, está a habilidade de obter cooperação plena. Num nível mais baixo está a obediência a ordens específicas, e num nível mais baixo, está a simples anuência, que não passa da permissão tácita de agir sem interferência. Todas estas são relações de poder que diferem apenas no grau e tipo de poder necessário para obtê-las.” (QUIGLEY, 1983, p. 13)
            Olavo de Carvalho (2004) dirá que a identificação plena entre mandante e mandado se dá na relação de autoridade entre pai e filho, ou mãe e filho. Nela, o bebê se entrega totalmente ao discernimento da mãe, que a sua vez procura abrigá-lo e conduzi-lo. A relação de amor é a base original da autoridade. Ela envolve um fascínio semelhante ao entre homem e deus, uma mistura de amor e temor, em doses variadas. O mesmo fascínio que o pavor ou a manipulação amoral podem suscitar. Daí a autoridade de líderes cruéis e psicopatas, numa inversão sinistra e paródica da relação original.
A autoridade cativa um apreço, uma deferência humilde. Não à toa o Livro de Urântia usa a palavra autoridade:
“Jesus, olhando bem fundo nos seus olhos, disse, em uma voz que demonstrava autoridade: "Mulher, vai buscar o seu marido e traze-o aqui". Essa ordem trouxe Nalda de volta a si. Ela notou que havia entendido mal a bondade do Mestre; e percebeu que havia interpretado mal o sentido das suas palavras. E chegou a ficar amedrontada; e começou a compreender que estava diante de uma pessoa excepcional (...).” (LIVRO DE URÂNTIA, 1976, p. 1613)
            A autoridade não é uma relação de poder ainda, está numa esfera de pré-poder. É a identificação imediata com algo superior, fora do concebido, que inibe o trivial e demanda uma aura solene, grave.
Ao longo de sua obra, Platão (2015) nota três dimensões do ser humano, a religiosa-sacerdotal, que busca intimidade com o mundo espiritual, a político-militar, que dá ordens com base na autoridade, e a utilitária-empresarial, que busca satisfazer necessidades e confortos materiais.
Olavo de Carvalho (2006) desenvolveu o estudo das castas indianas, elaborando uma tipologia aplicável a pessoas e organizações de acordo com as atividades a que se dedicam. A casta brâmane é a responsável pela transmissão de verdades espirituais; a casta xátria ordena a sociedade com base na autoridade e na honra, podendo usar a força física para defendê-la de inimigos externos, o que é o caso de uma guerra, e de inimigos internos, punindo fora-da-lei de acordo com seu código criminal; a casta vaixa empreende e toca negócios para enriquecer a si e a sociedade produzindo bens e serviços que as pessoas desejem. Quando estes bens atendem a necessidades, quando são úteis, a atividade vaixa é valorosa, porém quando se volta a realizar caprichos, seu valor é duvidoso. Os shudras são os trabalhadores que, seja porque não se capitalizaram para tocar seu próprio negócio, seja porque assim o escolheram, prestam serviços para outrem em sua organização.
Mário Ferreira dos Santos (1964) apontará que a fé, a valorização da virtude, a prudência e a caridade são as virtudes das respectivas castas.
As organizações militares, empresariais e religiosas têm características marcantes que permitem distingui-las. Cada qual delas tem um valor preponderante, que se reflete na sua estrutura organizacional inclusive.

2.1 Organizações militares

Os militares têm uma organização baseada na força, na intimidação física, na ameaça do uso da força para alcançar seus objetivos.
            A organização militar é o paradigma para entender outras organizações baseadas no uso da força.
            Os objetivos da organização militar a caracterizam menos do que o meio de consegui-los, que é o uso da força. Militares podem derrubar governos; invadir outros países; podem simplesmente acumular força como elemento dissuasório de possíveis agressores, o que caracteriza, aliás, a maioria dos exércitos do mundo hoje, menos agressores, que defensores dos países; seu objetivo importa pouco para caracterizá-la, o qual pode variar 180 graus, desde o assalto até a paz pelas armas, segundo o adágio: “Si vis pacem, para bellum”, todas as organizações militares, entretanto, deverão se basear na sua capacidade de mobilizar força física.
“A revolução na tecnologia militar significa que a missão militar de dissuasão da violência torna-se cada vez mais central, em comparação com os preparativos de aplicação da violência. Esta modificação tende a inclinar o pensamento militar e a organização para o lado do civilismo, à medida que os líderes militares mais se preocupam com variadas gamas de políticas e diretrizes sócio-econômicas.
O caráter anterior e periódico da organização militar (expansão rápida, desmobilização rápida) foi substituído por uma manutenção ou expansão permanentes. O caráter permanente da organização militar removeu uma fonte importante de conflito entre civis e militares, isto é, a tendência civil de abandonar a organização militar depois de finda a guerra. Ao contrário ,em face do alto grau de modoficação tecnológica, multiplicaram-se os conflitos internos entre as forças armadas.” (ETZIONI, 1973, p. 199)
            Como as decisões na organização militar não podem ser tão discutidas a ponto de se perder o trunfo da reação rápida em uma emergência, a ponto de se perder em discussões infrutíferas quando a necessidade é a ação, e havendo a necessidade de uma linha de comando clara, em que o subordinado sabe a quem deve obedecer, a estrutura da organização militar mantém uma configuração linear.
   “A classificação decrescente das organizações, segundo o grau de acentuação da coerção, é a seguinte: campos de concentração, prisões, reformatórios tradicionais, hospitais de internamento para doenças mentais e campos de prisioneiros de guerra. A classificação decrescente das organizações, segundo a predominância do grau de poder utilitário, é a seguinte: organizações de operários, tais como as fábricas, organizações de funcionários, tais como as companhias de seguro, os bancos, as repartições públicas e as organizações militares de tempo de paz. O poder normativo predomina nas organizações religiosas, nas político-ideológicas, nas escolas superiores e universidades, nas associações voluntárias, nas escolas e nos hospitais terapêuticos de doenças mentais. (ETZIONI, 1976, pp. 96-97)
Neste trecho, Etzioni fala sobre o tipo de controle exercido sobre os membros inferiores das organizações. Repare-se que as organizações militares são inseridas no grupo em que o poder utilitário é predominante. O controle através do aspecto utilitário é importante, difícil imaginar um soldado que não receba soldo, embora há registro de milícias voluntárias.
O poder específico da organização militar, porém, é o coercitivo. As organizações militares existem com o objetivo de exercer a força física, caso necessário, seu objetivo é a ameaça do uso de força física, que se concretiza, se o país que representam é atacado. Igualmente, o objetivo das forças policias é a ameaça do uso de força física, não contra inimigos externos, como no caso dos militares, mas contra fora-da-lei. 
Em certas empresas de segurança, os dois componentes, coercitivo e utilitário, estão de tal modo intrincados que não há preponderância de um sobre o outro. O objetivo da organização é lucrar prestando serviços que envolvem a ameaça de força física para proteção de seus clientes.
Exércitos se alimentam de impostos, ou saques, da riqueza alheia, portanto. Empresas, por sua vez, precisam gerar sua riqueza. Elas não tomam de outros. Para tocar seu negócio, precisa ela própria produzir a riqueza. As organizações empresarias, naturalmente, buscam o lucro. Elas se dedicam a fornecer um serviço e produto em troca de dinheiro.
As organizações empresariais têm as mais variadas estruturas.
“A empresa, como organismo vivo, deve estar apta para a contingência natural e inelutável de crescimento. Não lhe resta outra opção, senão a de expandir para sobreviver. O crescimento é sinal de vitalidade e garantia de sobrevivência. Portanto, a estrutura empresária deve ser adaptável a novas condições econômicas e humanas; seu planejamento ideal não deve constituir óbice à realidade de seu desenvolvimento. Os desequilíbrios e as disfunções naturais do crescimento, que uma administração com objetivos definidos deve estar apta a corrigir, encontram na dinâmica de podêres, acionada pelo exercício regular da delegação de autoridade, a resposta correta para o esforço total de expansão.” (MATOS, 1966)
Nos primórdios ainda da organização matricial, Lodi (1970) procurava detalhar seus elementos:
“(...) a organização matricial estabelece que: a) a organização é por projetos, b) cada projeto agrupa diversas fôrças-tarefas recrutadas dos departamentos de serviço originais, c) a duração de cada projeto e, portanto, de cada fôrça-tarefa é limitada à duração do contrato e do cronograma, d) toda a organização é, portanto, provisória e temporária, e) e finalmente mantém-se definida uma relação de linha-staff com os departamentos de apoio (...).” (LODI, 1970)
As empresas se permitem explorar novos modelos de estruturas organizacionais, elas são mais inovadoras que as organizações militares.
“O principal interesse dessas organizações está no controle instrumental de alguns problemas – como a produção e a competência – e não controle de relações e normas estabelecidas pelos trabalhadores, desde que estas não prejudiquem as atividades instrumentais.” (ETZIONI, 1976, p. 105)
O que não equivale a dizer que as organizações militares sejam avessas a mudanças. Não, grandes invenções, depois usadas por empresas, foram primeiro desenvolvidas num contexto militar. No próprio quesito organizacional, mais e mais as forças armadas têm destacado grupos pequenos, num modelo linha-staff, para atuar na guerra em redes, em que os exércitos tradicionais têm relevância menor.
“A liderança baseada nos hábitos militares tradicionais tem que dividir o poder com os peritos, não apenas em assuntos técnicos, mas também em assuntos de relações organizacionais e humanas. Adaptações organizacionais específicas dos meios militares sobrepujam os próprios desenvolvimentos na sociedade civil, já que os militares precisam insistir e persistir para obter inovações e reagem mais rapidamente às mudanças sociais.” (ETZIONI, 1973, p. 202)
Na organização militar há tensões organizacionais que giram em torno do esforço contínuo para desenvolver uma hierarquia de patentes apropriada à nova estrutura complexa de aptidões. Em teoria, pela tradição e pela imagem, o sistema de patentes militares é uma pirâmide contínua, com linhas de autoridade diretas e insofismáveis e canais de comando escalonado. Mas, na realidade, foi transformado em uma hierarquia cuja configuração se assemelha a um losango.” (ETZIONI, 1973, p. 205)
O valor norteador da organização militar é a valorização da virtude: “a organização militar se orienta para o dever e para a honra”. (ETZIONI, 1973, p. 203) Mal internalizado ou deliberadamente deturpado, o valor se torna a cobiça pela glória da conquista.
Há personalidades com uma autoridade independente do cargo, que encantam seus subordinados. Napoleão Bonaparte talvez seja o melhor exemplo. Ele ia à frente dos solados nos campos de batalha, que o seguiam.

2.2 Organizações empresarias

“Organizações econômicas são aquelas cujos objetivos primários consistem em produzir bens e serviços, cambiá-los ou organizar e manipular processos monetários.” (ETZIONI, 1976, p. 138)
Na organização empresarial, o valor preponderante é o desejo de sustentar-se a si, aos seus, de gerar riqueza e conforto. A contraparte deste valor, sua corrupção, é a mera ganância, avareza, desejo de possuir sem pensamento algum sobre como usar o acumulado.
A autoridade de uma personalidade capaz de entregar bens e resultados, gerar riquezas para sua empresa e a sociedade em geral, é menos nítida do que as autoridades religiosas e militares, mas existe, embora só costume ser sentida por quem tem um contato mais próximo com ela. Empresários de sucesso que saem em capas de revista de negócio não inspiram realmente autoridade alguma, quem acredita que as matérias não passam de propaganda do negócio ou vaidade paga?
Podemos destrinchar elementos da empresa: para ser capaz de fornecer um produto ou serviço, primeiro esse produto ou serviço precisa ter sido criado. O papel do inventor é evidente.
Não só, a fim de abrir uma empresa, o futuro sócio precisa dispor de capital ou buscá-lo junto a uma instituição financeira, a qual concentra a poupança de um conjunto de pessoas.
Os três pilares da sociedade capitalizada se delineiam: poupança, invenção e empreendedorismo, este a capacidade de transformar em produtos acabados e desejáveis invenções, admiráveis embora, mas sem utilidade prática ainda. Por isso:
“Na maioria das organizações econômicas, considerações tecnológicas geralmente se subordinam aos critérios econômicos e não há lugar para o domínio do perfeccionismo ideal e de realizações puramente tecnológicas, que não possam vincular-se à produção, nas condições econômicas existentes ou previstas para o futuro próximo. Daí que aqueles que tomam as decisões econômicas geralmente estão em posição de autoridade mais elevada do que os peritos. Na universidade, onde a meta é o conhecimento, onde interesses “improdutivos” de pesquisa são considerados objetivos básicos, e onde as considerações econômicas (como as decisões relacionadas com a distribuição de verbas) se subordinam àquelas considerações “especiais”, é legítimo e também funcional (de acordo com esta análise) que se subordine a administração aos “peritos”, por exemplo, aos conselhos administrativos ou outros órgãos da faculdade. Assim, estudando a distribuição de atividades, decisões críticas e incidências, situações conflitantes e hierarquias organizacionais, podemos determinar qual a orientação primária, qual a secundária, e assim por diante.” (ETZIONI, 1976, p. 139)
O trabalho do inventor, que pode ser um trabalho diletante, na indústria será submetido ao crivo da utilidade. O automóvel foi encarado como uma curiosidade de menor alcance quando inventado. Médicos, porém, logo enxergaram nele a diferença que propiciaria para um socorro rápido.
Um banco precisa de um forte esquema de segurança. A interface das organizações econômica e militar fica clara. Sem quem proteja seus cofres, o banco não se sustenta. Da atividade-meio da segurança, a ser realizada por uma firma contratada especificamente para esse fim, ou por seus próprios funcionários, depende toda a confiança do regime bancário. Na era eletrônica, a segurança se afasta de seu elemento característico, que é a força, para englobar o conhecimento técnico da segurança da informação, contra o assalto de hackers.
Se pensarmos que a riqueza pode ter origem em dez fontes, como delineado por Jesus e narrado no Livro de Urântia:
“E, como ajuda no estudo das fontes da tua grande fortuna, eu sugeriria que tivesses em mente os dez métodos diferentes de acumular a riqueza material:
1. A riqueza herdada — riquezas que se originam de pais e de outros ancestrais.
2. A riqueza descoberta — riquezas que vieram de recursos não cultivados da mãe Terra.
3. A riqueza do comércio — riquezas obtidas pelo lucro justo na troca e no intercâmbio de bens materiais.
4. A riqueza indevida — riquezas que se derivaram de uma exploração injusta ou da escravização do semelhante.
 5. A riqueza dos juros — a renda proveniente das justas e honestas possibilidades de ganho do capital investido.
 6. A riqueza do gênio — riquezas provindas de recompensas de dons criativos e inventivos da mente humana.
 7. A riqueza acidental — riquezas que se derivam da generosidade de um semelhante ou que têm origem nas circunstâncias da vida.
 8. A riqueza roubada — riquezas asseguradas pela injustiça, a desonestidade, o roubo ou a fraude.
 9. A riqueza de fundos — riquezas colocadas nas tuas mãos pelos teus semelhantes para algum uso específico, agora ou no futuro.
 10. A riqueza ganha — riquezas derivadas diretamente de teu próprio trabalho pessoal, a recompensa justa e honesta dos esforços diários de tua mente e teu corpo.” (LIVRO DE URÂNTIA, 1976, pp. 1462-1463)
   A riqueza própria da organização empresarial desponta como a de número 3. Mas as de números 5 e 9 são características de instituições financeiras. Além disso, a de número 6, como já dissemos, é essencial ao aumento da produtividade e portanto da riqueza.
A riqueza de número 10 é própria do trabalho assalariado, isto é, da pessoa que emprega seus dons físicos e mentais a serviço de uma organização empresarial, sem ser seu dono.
Os trabalhadores também se organizam, em associações de empregados e sindicatos, os quais podem ter mais influência política que associações empresariais.
“Existem sindicatos que se apoiam muito no poder coercitivo, a fim de vigiar os membros que se desviam, tal como ocorre nos sindicatos que estão no limiar de organizações “criminosas”; existem “sindicatos comerciais”, nos quais o controle se estrutura, em grande parte, através da capacidade dos representantes do sindicato para “mostrar serviço”, isto é, garantir aumento de ordenado e outras vantagens materiais. Finalmente, existem sindicatos nos quais o controle se baseia na manobra de símbolos ideológicos, tais como o compromisso com uma ideologia socialista.” (ETZIONI, 1976, p. 97)
Um fenômeno das sociedades capitalizadas é que fundos de poupanças de trabalhadores já estão entre os mais capitalizados. Isto quer dizer que os trabalhadores não são meros proletários, que só possuem prole e o necessário à sobrevivência, eles também conseguem poupar; embora indiretamente, são também capitalistas.

2.3 Organizações religiosas

O modelo das organizações baseadas na produção de símbolos é a organização religiosa. Basta pensar na profusão de símbolos associados a Jesus e os santos católicos para se fazer idéia disso.
As organizações religiosas fazem parte daquele grupo mais amplo de atividades que conduz o imaginário de todas as pessoas através dos símbolos que criaram. Esse grupo inclui profetas, poetas, filósofos, no primeiro nível, e seus divulgadores: jornalistas, publicitários, num segundo nível.
A autoridade deste primeiro grupo deriva de sua sabedoria, amor, ligação com a divindade e capacidade envolvente de contar histórias que expliquem a origem do universo e o destino do homem, que ao menos deem conta das perplexidades do homem.
A organização religiosa se dedica especificamente ao símbolo do encontro do homem com o espírito.
O valor específico da organização religiosa é a fé, que rapidamente se deteriora em crença teológica, quando a experiência autêntica é substituída pela defesa argumentativa e pelo sentimento de grupo ante ataques ao simbolismo gerado.
Num sentido mais amplo, a deturpação do simbolismo que abre a imaginação para reconhecer e compreender experiências de vida as quais sem ele ficariam opacas é a manipulação psicológica.
“O controle em organizações normativas”, como Etzioni chama as organizações que se apoiam em primeiro lugar no símbolo, “é muito mais dependente de qualidades pessoais do que nas organizações coercitivas.” (ETZIONI, 1976, p. 102)
“Por isso, através de diversos processos de seleção e socialização, as organizações normativas procuram preencher as posições da organização, de onde se exerce o controle, com indivíduos que exercem influência pessoal e combinam, portanto, o poder normativo da posição (por exemplo, a posição de padre) com o poder pessoal (por exemplo, a personalidade convincente), ou seja, com líderes formais. Os indivíduos sem poder pessoal são frequentemente transferidos para posições da organização onde não se exerce controle, como o trabalho de escritório ou o intelectual. Esses esforços sistemáticos das organizações normativas para proporcionar lideranças nas posições formais, bem como o êxito muito grande desses esforços tornam menos provável o aparecimento de líderes informais.”
Nas organizações religiosas, na realidade, o símbolo nascido da experiência original foi diluído e enquadrado em ritos mais ou menos formais que prometem reviver a experiência original.
Entre as organizações de tipo simbólico e coercitivo, se insere a organização política, a qual manipula símbolos capazes de capitalizar insatisfações dispersas e se propõe a resolver ou amenizar a fonte imaginada dessas insatisfações, para isso se valendo do poder de governo, tão logo lá chegue, que é um poder coercitivo, em parte, e em parte um poder de gerir e distribuir as riquezas dos impostos.


3     ANÁLISE

O referencial teórico apresentou as diferenças-tipo entre organizações militares, empresariais e religiosas, e abriu a partir delas um espectro de organizações com matizes de cada um dos tipos de poderes que caracterizam as organizações.
A organização militar é calcada no uso da força física e da intimidação psicológica.
A organização religiosa, formadora de símbolos, trabalha no nível psicológico-espiritual.
A organização de tipo político-partidário combina elementos das duas, produzindo símbolos que vão ao encontro dos desejos e das insatisfações de uma população para mandar nela, inclusive pela força física, assim que esta lhe esteja disponível. Ela trabalha elementos simbólicos para montar sobre a estrutura principal de uso da força, o Estado.
No nível utilitário da vida, os homens se organizam para produzir bens que satisfaçam suas necessidades físico-biológicas.
O empreendedor pega uma invenção e lhe dá um acabamento comercial, proporcionando seu uso ao público. Para isso, o empreendedor deverá ter juntado uma poupança para investir ou pegará emprestada a poupança alheia disponibilizada através dos bancos.
Nem todas as empresas envolvem uma inovação de ruptura, porém. Sequer uma inovação incremental às vezes. O dono do bazar da esquina pode muito bem tocar seu negócio sem ter feito inovação de negócio alguma.
Se a organização empresarial produz bens, a organização militar tem o poder de pegar estes bens adquiridos. “O imposto se chama imposto porque é imposto”, segundo a frase famosa de Carlos Drummond de Andrade. Ele revela o poder da organização político-militar de tirar das pessoas o que produziram.
Empresas de segurança combinam elementos das organizações empresarial e militar, porque existem para defender a integridade patrimonial e física, esta é sua missão, só não coagem aqueles a quem se propõem a defender a pagar-lhes nada. Existe um acordo, um contrato, em que a empresa entrega segurança e o assegurado paga por isso. Neste sentido, as empresas de segurança se diferenciam das organizações militares, das milícias no Rio de Janeiro ou das máfias, porque não obrigam ninguém a lhe pagar, a lhe dar bens, não ameaçam para se sustentar biologicamente.
Enquanto trocam bens e serviços, as empresas de segurança se assemelham a uma organização empresarial, o serviço que prestam, porém, é de natureza militar.
Organizações religiosas vivem de doações, sobretudo. Na Idade Média, profissões que exigiam um saber técnico elaborado, como a de médico e advogado, eram pagas não exatamente em retribuição ao serviço, mas por gratidão. O pagamento à consulta era, por este motivo, chamado de honorário, que remete a honra. É bastante normal darmos um presente a uma pessoa que nos fez algo por liberalidade, nada ficou acertado de antemão, quanto e o quê seria trocado, mas a pessoa que recebeu o serviço se sente grata e deseja agradar quem a ajudou, quem fez algo por si. Este princípio é primordial em organizações de tipo simbólico.
As universidades nasceram das escolas monacais e carregavam um forte sentido simbólico. As obrigações administrativas e de forma a que estão submetidos professores e alunos nas universidades, porém, prejudica a produção de um saber mais voltado ao conteúdo, revelador da experiência real; ao invés disso, a forma tem uma importância própria, para além do modo com que o conteúdo aparece, o que é um problema desde os primórdios da universidade, pior hoje, porém. Num quadro maior, trata-se de saber como a organização social voltada para a produção do conhecimento influi nessa mesma produção.
A forte presença de partidos políticos e o investimento de capitalistas mais interessados num resultado determinado do que na pesquisa científica em si levantam a questão se a universidade tem só o selo de produção do conhecimento ou se realmente o tem produzido.
Que professores e alunos tenham partidos não é em si um problema, mas se são incapazes de conversar com colegas com perspectivas e experiências variadas, de se abrir ao que pensem, só fazem por amesquinhar a universidade, cujo prestígio social, cada vez mais baixo, será usado para dar credibilidade, para dar ares científicos, ao que não passa de propaganda partidária.
O simbolismo que produzirão pode ter uma influência poderosa, mas pode também esbarrar nas vozes daqueles que não quiseram render as homenagens, os rapapés, tão necessários a uma passagem ou carreira bem-sucedidos neste ambiente degradado, aos assuntos e àqueles que, na realidade, merecem desprezo.


4 CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS

O artigo procurou demonstrar os valores específicos das organizações religiosa, militar e empresarial.
A perspectiva de uma organização religiosa é abrir mais e mais mão da autoridade centralizadora, que sufoca o espírito individual dos fiéis. “Se o reino de Deus está dentro de cada um de vocês”, é preciso que o trabalho do padre e do pastor seja menos coercitivo, menos dedicado ao rigor das formas, e mais um trabalho de facilitador, de inspirador do espírito que subjaz à lei.
As organizações militares se adequam à geração das bombas nucleares e de pulso eletromagnético, que praticamente significam a destruição mútua de países que as tenham, na eventualidade de uma guerra. A capacidade de destruição destas bombas põe um certo freio nos ímpetos militaristas. Contra países menores, as organizações militares têm um papel mais tradicional, com o emprego de homens no solo. Mas, mesmo neste caso, a geração de drones também diminui a necessidade de usá-los. Serviços de inteligência é que continuam indispensáveis, promovendo guerras psicológicas e informando sobre a movimentação de grupos terroristas.
A prontidão militar pode prevalecer sobre o imperialismo, mas isso depende do amadurecimento moral-espiritual da casta político-militar.
As organizações empresarias continuarão procurando estruturas organizacionais e métodos de produção que lhe permitam aumentar a produtividade. Sabe-se que a tendência é de produtos cada vez mais personalizados, o que favorece empresas ocupadas com a satisfação de um cliente que já matou suas necessidades básicas.
As organizações militares, empresariais e religiosas poderão mudar de configuração, mas não perderão seus poderes específicos, que são a coerção, a utilidade e a imaginação simbólica.
Note-se que a Idade Média conheceu um tipo de organização bastante específica, que desapareceu no século XIX definitivamente, as organizações monástico-militares, como o nome diz, voltadas à defesa da prática da fé, protegendo peregrinos em viagem a Jerusalém e lutando contra muçulmanos. Uma dessas organizações, os templários, valendo-se de sua rede de castelos e monastérios, chegou a ser o banco da Europa, o que pode ter sido um dos motivos de sua desgraça junto ao rei francês e ao papado depois. É uma organização que chegou a combinar os três elementos-tipos das organizações militar, religiosa e empresarial.
As organizações monásticas de cavalaria mobilizaram o imaginário medieval, inspirando novelas e o desejo de explorar novas terras, de aventurar-se no desconhecido; lutaram efetivamente contra muçulmanos, eram guerreiros no sentido estrito do termo; e, no caso templário, armazenaram bens e emprestaram dinheiro.





5 REFERÊNCIAS

 

CARVALHO, Olavo de. Curso Teoria do Estado – 3ª aula. Curitiba: 2004. Audiocassete. 158 min.

______. Sociopatia e Revolução. Diário do Comércio. São Paulo, 23 de out. de 2006. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/semana/061023dc.html. Acesso em: 17/10/2016.

ETZIONI, Amitai. Organizações Modernas. 5 ed. São Paulo: Prentice Hall, 1976. 190p.

______. Organizações Complexas: estudo das organizações em face dos problemas sociais; tradução de João Antonio de Castro Medeiros. São Paulo, Atlas, 1973. 466p.

LIVRO DE URÂNTIA, Documento 132. In LIVRO DE URÂNTIA. Português. Chicago: Urantia Foundation, 2007. 2097p.

LODI, João Bosco. A estrutura matricial e a estrutura sistêmica: dois novos tipos de organização. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, vol. 10, nº 4, Out./Dez., 1970. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-75901970000400008. Data de acesso: 14/03/2017.

MATOS, Francisco Gomes de. Descentralização e delegação de autoridade. Revista de administração de empresas. São Paulo, vol.6, nº 19, Abril/Junho, 1966.

 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-75901966000200003&lng=en&nrm=iso. Data de acesso: 14/03/2017.

PLATO. Complete works. [S.1] CreateSpace Independent Publishing Platform, 2015. 758p.

PRIESTLAND, David. Uma nova história do poder: comerciante, guerreiro, sábio; tradução de Isa Mara Lando e de Mauro Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 336p.

QUIGLEY, Carroll. Weapons Systems and Political Stability. Washington: University Press of America, 1983. 1064p.

SANTOS, Mário Ferreira dos. Problema Social. São Paulo: Livraria e Editora Logos, 1964. 227p.

6 OBRAS CONSULTADAS

 

CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. 464p.

CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 7. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, 650p.

LASCH, Christopher. The Revolt of the Elites and the betrayal of democracy. New York: W. W. Norton & Company, 1996. 276p.

MILLS, Wright. The Power Elite. New York: Oxford University Press, 2000. 448p.

MINER, John B. Organizational Behavior: Foundations, Theories, and Analyses. New York: Oxford University Press, 2002. 888p.


NICHOLSON, Helen. A Brief History of the Knights Templar. London: Running Press, 2010, 352p. 

sexta-feira, maio 20, 2016

Depois do banho

Agora eu fico limpinho
até a próxima mamada,
sem leite azedo, sem nada.

sexta-feira, março 25, 2016

Estudos com o Livro de Urântia debaixo do braço.

Publiquei na Amazon um livro com o título acima.

Trata de filosofia, religião, profecia, história, tudo com o Livro de Urântia a mão.

Você pode pegar uma amostra e comprá-lo aqui:

Abaixo, uma palinha:

"(...) Caligástia correu de Deus, de Gabriel; Adão e Eva foram sinceros. Esconderam-se no início, mas voltaram. Não fizeram a mentira da mentira. Conquistaram-na. A mentira não fez parte de sua constituição psicológica, a ponto de não saberem mais o que era mentira, o que era verdade, porque tudo seria mentira cínica.
A idéia do verdadeiro é necessária para qualquer conhecimento. Sem a idéia do verdadeiro o homem aceitaria bovinamente todo seu conhecimento, não perceberia grau algum de veracidade naquilo que chegasse a conhecer.
A mentira tem como referência a verdade, escondida por razões táticas num lugar da mente, mas ainda assim sabida. Que se passe a acreditar na mentira, significa, para quem acredita no pensamento mentiroso, uma nova verdade. Se não, não acreditava nela.
Na neurose, a mentira não esconde conscientemente a verdade, mas como que a apaga, perde a referência com ela, a mentira se torna a verdade, não porque a pessoa acredita nela, mas porque se instalou no lugar de uma verdade esquecida, que não pode suportar. Essa, porém, faz pressão para subir ao consciente, enquanto o mecanismo de defesa tenta mantê-la ali, subconsciente, pelo custo emocional que causaria seu reconhecimento. Numa crise essa verdade emerge semiconsciente, e a pessoa deve então entender os motivos que a levaram a rejeitá-la, revivendo a dor da experiência que a ensejou, para integrá-la em sua personalidade, perdoando-se talvez pela sua anterior rejeição.
A mentira patológica, porém, não rejeita a verdade por medo emocional apenas; se num primeiro momento errou ao acreditar numa mentira, agora que percebe a verdade, porque não quer voltar atrás, mente dizendo-se que ela, a verdade, é uma farsa criada para dominá-lo, permitindo-se enxotá-la de sua consciência. Detesta-a por ter se enxerido inadvertidamente em seu erro e a desdenha por sua falta de apelo psicótico, por sua atratividade sem coação, por sua opressão de pedir tão apenas o querer, ao invés de estabelecer-se pela força, o que lhe daria pretextos vitimistas genuínos. A mentira patológica troca o elã da personalidade pela máscara da morte; o farsante faz de conta que o mundo duro é uma maquinação contra si, quando ele é apenas ruim.
O mentiroso patológico vive dialeticamente entre a verdade e a mentira, essa se alimentando daquela, sempre lhe dando chance de mentir de novo e de novo (muito para si e mais um pouco para os outros). Ele conhece muito bem aquilo que gostaria que não existisse. Como o psicopata, se alimenta dos sentimentos morais de sua vítima, os quais ele próprio não tem, mas cujo funcionamento conhece muitíssimo. Sabe da verdade, portanto, apenas a rejeita a cada vez, porque é orgulhoso demais para aceitá-la. É a diferença entre Caligástia e Adão. Odeia, sem odiar a ponto de esgotar o som e a fúria da vida, antes manipula seu ódio com um riso sardônico. Ele é mau.
“Seu sorriso se desvaneceu lentamente e ele nada disse. Limitou-se a acender outro cigarro e a me observar com ar petulante. Pela primeira vez, senti que seu olhar traía a frieza de um psicopata. Aquilo me perturbou. Se antes ele parecia apenas querer me sacanear, agora parecia realmente convicto do que falava. Um arrepio me percorreu dos pés à cabeça”. (Yuri Vieira, em O machista feminista)"

sábado, janeiro 09, 2016

A diferenciação do mito em filosofia e técnicas de Jesus

XXII A Diferenciação do Mito em Filosofia


Pode ser que nem toda a fantasia do homem sobre o universo seja um fato, mas muito nela é verdadeiro (Doc. 196).

           
            “Early philosophical efforts translated the insights of the dissolving mythology into terms that go beyond the image, or at least reduce its distracting presence. Abstraction, logic, and mathematical philosophy would ultimately emerge from this difficult and epochal transition from concrete to abstract diction.” (MCEVILLEY, 2002, p. 28.)

            Alegorias são ilustrações de conceitos, de ideias.
Mito é uma história alegórico-simbólica que dá um quadro referencial explicativo a fenômenos cuja origem não se pode explicar plenamente. Ele seria a ciência das ciências, não fosse o fato de não ser científico. Não o é justamente porque extrapola relações materiais de causa e efeito para mostrar correlações, analogias. O mito, neste sentido, tem muito mais a ver com o processo de entendimento humano do que a ciência, uma forma de conhecimento não só lógica e abstrata, mas bastante específica, porque nem sempre estamos prestando atenção à causa eficiente dos acontecimentos. Sempre, porém, mesmo sem querermos, estamos esquadrinhando sua causa formal. É o que cientistas fazem quando imaginam um átomo depois de terem precisado características suas.
Alguns mitos podem ser criados a partir de uma experiência clara e distinta também. Quando Platão criou o mito da caverna, veja, não é um mito que se estabelece pela tradição oral, com uma variação aqui ou acolá, que está no imaginário coletivo como ciranda, cirandinha, e cuja origem mal se pode rastrear, é um mito com um propósito educativo evidente; nesse caso, ele é a representação de uma realidade cujo acesso é muito facilitado pela representação. São as madeixas que Rapunzel joga, ao contrário do pé-de-feijão que brota. O caminho a percorrer, porém, é o mesmo.
O Livro de Urântia no documento 151 nos dá pistas para entender a diferença entre uma parábola e uma alegoria. Esta tem uma “linguagem codificada”, como diz Rafael Falcón, que se deveria descodificar. Alegorizar uma parábola seria dar-lhe um sentido unívoco, enfiando nela mais do que seu sentido eminente sugeria, mais do que o aspecto que se quis enfatizar; seria individualizá-la segundo um entendimento específico, atendo-se a detalhes secundários. É próprio da parábola ser imaginada de maneira pessoal por cada pessoa. Ela tem muito em comum com o mito: trata-se de uma história que tende ao simbólico quanto mais capaz de provocar interpretações diferentes, interpretações que não estão erradas por serem diferentes[1], porque são adequações mentais a apelos moral-espirituais.
A alegoria expressa figuradamente o que já se sabe; o símbolo impressiona ao invés de exprimir, ele aponta ao que não se entende ainda, ao que não foi feito para se entender totalmente, porque não é função do símbolo apontar conceitos (por isto seu objeto não é definível), mas jogar luz sobre experiências e realidades significativas com suas nuances e tensões.
A fábula e a parábola são diferentes do mito porque encerram uma lição moral, o mito não necessariamente, não apenas. A parábola usa elementos humanos, enquanto a fábula, narrativa que consagra a prosopopéia, usa elementos fantásticos. Jesus não gostava de fábulas, porque nela é fácil perder o contato com a realidade, é fácil pirar na batatinha, além de poder prestar-se para que enfiem goela abaixo qualquer aspecto absurdo com truques imaginativos. Por isso, preferia parábolas naturalistas, que inspiram a sensatez, o pé no chão. A idéia, porém, é a mesma. Outra diferença é que o mito transita na imaginação humana entre a verdade histórica e a ficção, a fábula e a parábola não pretendem ser reconhecidas como verdade histórica.
Quando o mito do bom selvagem surgiu, algo de um sentimento de mal-estar pela correria da vida urbana e o gosto de vida arcádica havia, mesmo gosto que Jacinto (personagem de Eça de Queiroz em A cidade e as serras) sentiu ao mudar-se de Paris para a vilazinha portuguesa, de onde não quis mais sair, mesmo gosto que sentimos ao visitarmos o sítio da avó no interior.
Em evento sobre Vinícius de Moraes, Bruno Tolentino disse que o cheiro de merda no campo é bom, na cidade não, mas no campo, merda de vaca, é bom[2]
O mito do bom selvagem apela a imagens de praias paradisíacas e de mata densa, ao contato com a natureza. Ele explica o mal-estar de uma civilização que teria decaído de seu estágio primitivo, o qual, se não era lá muito tecnológico, era mais feliz, menos brutal. Seu quadro de referência tangencia a valorização da experiência da vida tranqüila e sensitiva do campo.
Mais amplo que ele, o mito da natureza foi o tema das festas jacobinas em comemoração à queda da Bastilha no Champs-de-Mars. “Natureza” apelava tanto à noção de ordem superior, quanto à simplicidade arcadiana. De fato, o qualificativo "natural", em direito natural, ordem natural, liberdades naturais, já teve um grande apelo. Era o "social" da época, que também está passando. Foi um lema para a classe média liberal cheia de pretensões intelectuais e políticas que ascendeu com a revolução.
Eu posso, porém, apreciar uma vida idílica no campo e nem por isso achar que o homem primitivo é bom. Considerada a evolução espiritual de então, ele é tão bom quanto qualquer homem de hoje ou do futuro.
Peço licença para repetir uma citação do L. U.:
“Os intelectos parciais, incompletos e em evolução estariam desamparados no universo-mestre, seriam incapazes de formar o primeiro modelo de pensamento racional, não fosse pela capacidade inata de toda mente, mais elevada ou mais baixa, de formar um quadro do universo dentro do qual pensar. Se a mente não pode estabelecer conclusões, se não pode penetrar as verdadeiras origens, então essa mente irá, infalivelmente, postular conclusões e inventar origens para que possa ter um meio de pensar logicamente dentro da moldura desses postulados criados pela mente. E, conquanto essas molduras do universo para o pensamento da criatura sejam indispensáveis à operação intelectual racional, elas são, sem exceção, errôneas, num grau maior ou menor.
Os quadros conceituais para o universo são apenas relativamente verdadeiros; eles são um andaime útil que deve finalmente ceder o seu lugar diante das expansões de uma compreensão cósmica ampliada.”(LIVRO DE URÂNTIA, 2007, doc. 115, p. 1260)
Essa passagem por si só serviria para pensadores do século XIX que acreditavam no poder absoluto da razão colocarem as barbas de molho.[3] Nosso tema agora não é esse, porém.
O mito encerra uma verdade relativa. Ele deriva de uma experiência genuína, mas o quadro de referência que cria para colocar em evidência essa experiência é mais (ou menos) arbitrário.
Por isso os mitos podem ser aperfeiçoados, de modo que dêem um quadro mais exato da realidade, ou melhor, de modo que sua alegoria simbolize mais e mais a realidade a que se referem. Não vejo como alguém pode dizer se Tales estava filosofando ou criando um mito quando disse que a água era a origem de todas as coisas.
O mito grego da criação do mundo diz que do CAOS primordial diferenciou-se Géia, a qual “gerou a Urano (Céu), que a cobriu e deu nascimento aos deuses”. (BRANDÃO, 1986, p. 185)
“Ó Sólon, Sólon, vós, Gregos, sois todos umas crianças; não há um grego que seja velho”. Ouvindo tais palavras, Sólon indagou: “O que queres dizer com isso?” “Quanto à alma, sois todos novos – disse ele”. (PLATÃO, 2011, p. 83)
Platão, então, relata-lhes o mito pelo qual um demiurgo bom gerou nosso mundo, um ser dotado de inteligência, com a forma esférica – a mais perfeita, segundo Platão –, de modo a conter em si todas as formas possíveis. A partir do mundo o demiurgo extraiu os seres que o habitariam.
Platão pretendeu substituir a narração mitológica clássica da criação do mundo por um mito que ele considerava mais próximo do que efetivamente teria sido a ação criadora do mundo.
“Thus the first peoples, who were the children of human race, founded first the world of arts; then the philosophers, who came a long time afterwards, and so may be regarded as the old men of the nations, founded the world of the sciences, thereby making humanity complete.
This history of human ideas is strikingly confirmed by the history of philosophy itself. For the first kind of crude philosophy used by men was autopsia or the evidence of senses. It was later made use of by Epicurus, for he, as a philosopher of the senses, was satisfied with the mere exhibition of things to the evidence of the senses. And the senses of the first poetic nations were extremely lively, as we have seen in our accounts of the origins of poetry. Then came Aesop, or the moral philosophers whom we would call vulgar. (As we have noted above, Aesop preceded the seven sages of Greece.) Aesop taught by example and, since he lived in what was still the poetic age, he took his examples from fictitious similitudes. (The good Menenius Agrippa used one such to reduce the rebellious Roman plebs to obedience.) An example of this sort, or better still a true one, is even now more persuasive to the ignorant crowd than the most impeccable reasoning from maxims. After Aesop came Socrates, who introduced dialectic, employing induction of several certain things related to the doubtful thing in question. (VICO, 1948, p. 174)
Na infância da república americana, George Washington foi pintado como um herói curioso, incapaz de mentir, entre outras coisas. Um livro preferido de Abraham Lincoln era "The Life of George Washington, With Curious Anecdotes, Equally Honorable To Himself and Exemplary To His Young Countrymen", com histórias fantásticas sobre o founding father. Hoje, passada a infância americana, Washington é biografado com rigor histórico, o que não precisa, necessariamente, diminuir a afeição que se tem por ele. A filosofia não mata o mito, ela pode até exaltá-lo (“O filósofo é também amante do mito, pois o mito consiste em coisas admiráveis”, disse Aristóteles).
É interessante notar que no fato de serem explicações provisórias para a realidade mito e ciência são iguais. A abstração do mito em teorias verificáveis na experiência física não torna a realidade plenamente compreensível, mesmo uma realidade recortada.
“A insistência em novos testes vem do fato de nenhuma teoria ser perfeita, existindo sempre dentro de limites de validade. A própria teoria da relatividade explica coisas que a teoria de Newton não explica, como os três testes acima. A esperança é que, ao expor a teoria a testes cada vez mais sensíveis, será possível vislumbrar onde ela falha. Essas falhas, por sua vez, apontam para novas teorias, novas idéias sobre a natureza. É sempre bom lembrar que a ciência é uma narrativa que se aprimora constantemente”. (GLEISER, 2007)
Ciência são hipóteses explicativas de fenômenos naturais que os experimentos não têm desmentido.
Pode até acontecer de o mito conter uma verdade cuja cientificidade, antes rejeitada, virá depois a ser afirmada. É realmente risível, aliás, que cientistas queiram dar risinho e fazer pouco sobre a mitologia antiga quando acreditam que novos universos são criados a todo momento, confundindo probabilidade com atualidade dentro da mecânica quântica.
Exemplo de mito relegado à desconfiança que recuperou status científico: a existência da guerra de Tróia.
O Livro de Urântia confirma vários mitos e desbanca outros. Deus não mandou Abraão matar Isaac até interrompê-lo no último momento, mas Adão e Eva realmente existiram, embora não tenham sido os primeiros seres humanos; o diabo existe realmente; a mitologia dos heróis gregos não veio do nada, baseou-se em sua ascendência adamita e nodita[4]; Tor foi um líder militar bem sucedido antes de ser venerado como deus; a árvore do jardim do Éden, jardim que também existiu, não era a árvore do conhecimento do bem e do mal; e por aí vai.
O Livro de Urântia traz também o exemplo da história dos reis magos atraídos por estrelas como um mito criado por pessoas bem-intencionadas, mas sem fundamento, porém. Houve os sábios do Oriente, que vieram pagar visita à luz da vida nascida em Israel, e na mesma época houve uma conjunção astral incomum. Os eventos, porém, não estão conectados. Os sábios do Oriente foram avisados por um Serafim.
O filósofo Platão quis expulsar poetas de sua cidade ideal, mas ao mesmo tempo com freqüência citava como autoridade Homero e era, ele próprio, um criador por excelência de mitos. “Intimacies and reciprocal distrust made iconic by Plato” (George Steiner). Como se explica isso?
            A pinimba de Platão é antes uma acusação contra os imitadores baratos, macaqueadores, do que contra os poetas em geral. Queria ele a imitação poética da virtude, não do vício, a qual devia ser banida. Machado de Assis e Nelson Rodrigues (esse, então, nem se fala), dois escritores com uma acuidade psicológica de primeiríssima qualidade, que se dedicaram antes a analisar o vício do que a virtude, se contorcem agora; teriam que se desdobrar para conseguir seu lugar na República. Machado poderia dizer em seu favor o que, como censor do Conservatório Dramático Brasileiro, escreveu em favor da peça As leoas pobres, citando seu próprio autor, Émile Augier:
            “Thérèse: Mas existem certas feridas sociais que seria mais sábio esconder.
Pommeau: Para que a gangrena se instale nelas? De jeito nenhum! Podemos expô-las à luz do dia, mas encostando nelas o ferro em brasa. A verdadeira finalidade da comédia não é a de encorajar o vício escondendo o seu segredo, mas o de enfraquecê-lo desmascarando-o.”[5]
            Mas Platão sugeriu também, motivo pelo qual é acusado de autoritarismo, que as obras poéticas devam passar por uma censura antes de serem lidas para as crianças e jovens. “Pois a criança não pode discernir o alegórico do literal, e as opiniões que acolhe nesta idade tornam-se, comumente, indeléveis e inabaláveis”. (PLATÃO, livro II) Bom, muita coisa ruim que chegou à minha mente quando jovem eu fui depurar com a filosofia, de Platão, por exemplo. Difícil de aceitar, Platão, é que se apaguem das obras poéticas passagens consideradas viciosas ou mentirosas, como as em que Homero relata disputas entre os deuses. Um professor pode muito bem selecionar as passagens virtuosas de uma obra literária que quer que seu aluno leia, afastando as viciosas, assim como um pai proíbe seu filho menor de assistir à novela das nove (deveria proibir a das sete também!). Pode também usá-la, o professor, numa turma mais madura[6], como ensejo para uma discussão sobre a natureza da Deidade. Será mesmo, perguntará socraticamente o professor, que:
““Dois tonéis se encontram à soleira de Zeus,
Um cheio de sortes felizes, e outro, infelizes,”
E aquele ao qual Zeus concede de ambas
“Ora experimenta do mal, ora do bem;”” (PLATÃO, 1965, p. 140)
Será mesmo que Deus trata assim aos homens? Ou será que quer o seu bem? Mas, se os ama e é bom, por que não impede o sofrimento humano? Etc., etc.
Como Deus permite o sofrimento humano, se é bom? Chama-se a esse problema teodicéia. Esboço aqui um tratamento da questão: A vontade de Deus não é unívoca, ela tem planos. Não é da vontade de Deus que alguém pratique o mal, muito menos o mal deliberado. Mas é da vontade dele que a pessoa possa escolher, possa decidir. A vontade dele fundamental é o livre-arbítrio das personalidades.
Por isso, quando alguém peca, isto é, quando deliberadamente dá uma volta em Deus; não é vontade sua que ela peque, isso seria contradição em termos, mas é vontade sua que ela possa pecar, e que peque realmente se assim escolher.
A vontade específica de Deus é o bem na situação concreta, mas ela não é decisiva, não sempre, ao menos, porque o livre-arbítrio não pode ser suprimido. Claro que Deus mexe pauzinhos para que a iniquidade não gere resultados devastadores, ou ele seria um Deus de Newton tricotando alheio à vida lá fora. Os resultados de iniquidades ele pode evitar e pode também promover o bem, é o que faz toda hora, mas não suprime as escolhas das criaturas de vontade.
Mas e as doenças, catástrofes naturais, que causam sofrimento? São elas fruto da vontade de personalidades também, sempre? Esse é um dos problemas mais difíceis que existem, a meu ver. Sei que os Portadores da Vida verão muitas excrescências biológicas, que não planejaram quando implantaram o plasma da vida no planeta, no decorrer da evolução; o acaso realmente existe na evolução das espécies, embora o plano diretor, apesar das linhas marginais, seja mantido. Sei também que depois que surge a criatura de vontade, o ser humano, como nos conhecemos em nosso planeta, passa a ser o responsável pelos ajustes biológicos eventuais. Fazemos isso selecionando animais, espécies de plantas. No longo prazo, faremos também com os micro-organismos que geram doenças. Eles não mais serão prejudiciais.
Enquanto isso, pessoas têm câncer e os intestinos da terra se mexem para derrubar prédios. Com certeza não é a vontade específica de Deus que as pessoas fiquem doentes. Esse papo de que devemos aprender uma lição na dor é cascata. Deus não quer isso. Tampouco deseja que nossas casas sejam engolidas por um furacão. E tampouco é a ação de uma personalidade maldosa que causa isto também, não sempre. Então o que é?
Se virmos doenças e terremotos não como mal, mas como desgostos, a coisa talvez mude de figura. De fato, ficar doente não é nenhuma maldade, é ruim, mas não é mal. A ordem do cosmos é a melhor possível, diz-nos Leibniz. Desgostos, que testam nossas crenças, que colocam em xeque nossa fé, que nos dão raiva contra Deus, há, mas a vida em outros mundos segue. Mesmo que aqui o câncer nos destrua.
            O pior argumento contra Deus, realmente, é a existência de doenças. A existência do mal pode ser explicada pelo livre-arbítrio. A psicopatia já cria complicações, porém, porque é a doença de pessoas manipuladoras e sem escrúpulos, que, embora não tenham sentimentos morais, sabem bem como eles funcionam nas outras pessoas.
Mas as doenças não têm explicação moral. Sua explicação é biológica. Por que Deus não criou o mundo de modo que não existisse o câncer ou que defeitos genéticos como a síndrome de Down não aparecessem?
Porque não tinha como fazer diferente, uma vez que a dinâmica biológica tem suas regras, as melhores possíveis, o que inclui acidentes também?
Não é necessário expurgar do texto poético, dizíamos, essas passagens.[7] Elas são a origem mesma da filosofia.
            Mudando um pouco de assunto, é curioso observar que Justiniano I, o imperador bizantino que mandou compilar o Corpus Iuris Civilis, é o mesmo a quem se imputa ter fechado a Academia neoplatônica[8], expulsando filósofos pagãos do império, os quais buscaram refúgio no império persa sassânida. Um dos movimentos considerados marcantes das translationes studiorum[9] teve ocasião justamente então. Na Pérsia, a breve estadia dos filósofos neo-platônicos deu impulso para que a escola de Jundi-Shapur fosse fundada.[10] De volta ao império bizantino, Simplício se instala na cidade de Harran, “onde uma escola neoplatônica autêntica e importante sobreviveria ao menos até o século décimo” (BECHTLE, 2000, tradução minha). Em 532, três anos após a decisão pelo exílio, Justiniano firma acordo de paz com o Império persa, em que consta uma cláusula garantindo aos filósofos “que esses homens, ao retornarem a seus países, deverão viver sem medo e livremente pelo resto de suas vidas, sem serem forçados a acreditarem no que quer que vá de encontro a suas visões ou a mudar as crenças de seus ancentrais.” (BECHTLE, 2000, tradução minha)
            Talvez se lembrando das lições de Marco Aurélio, seu antecessor na direção do império, Justiniano tenha voltado atrás.
            Tratando da arqueologia do eu, Ken Wilber, esse tesouro americano, nos dá uma análise da passagem da fase mítica para a lógica na ascensão interior até o Espírito:
            “This early mental self is at first a simple name self, then a rudimentary self-concept, but it soon expands into a full-fledged role self (or persona) with the emergence of the rule/role mind and the increasing capacity to take the role of other (F-4). The worldview of both late-F3 and early F-4 is mythic, which means that these early roles are often those found displayed in the mythological gods and goddesses, which represent the archetypal roles available to individuals. That is, these are simply some of the collective, concrete roles available to men and women – roles such as a strong father, a caring mother, a warrior, a trickster, the anima, animus, and so forth, which are often embodied in the concrete figures of the world’s mythologies (Persephone, Demeter, Zeus, Apollo, Venus, Indra, etc.). (…) These mythic roles are simply part of the many (sub)personalities that can exist at this preformal mythic level of consciousness development; they are preformal and collective, not postformal and transpersonal. A few “high archetypes”, such as the Wise Old Man, the Crone, and the mandala, are sometimes symbols of the transpersonal domains, but do not necessarily carry direct experience of those domains.
            (…)
            With the emergence of formal-reflexive capacities, the self can plunge yet deeper,    moving from conventional/conformist roles and a mythic-membership self (the persona), to a postconventional, global, worldcentric self – namely, the mature ego (…).
            As vision-logic begins to emerge, postconventional awareness deepens into fully universal, existential concerns: life and death, authenticity, full bodymind integration, self-actualization, global awareness, holistic embrace (…). In the archeological journey to the Self, the personal realm’s exclusive reign is coming to an end, starting to be peeled off a radiant Spirit, and that universal radiance begins increasingly to shine through,             rendering the self more and more transparent.” (WILBER, 2000, pp. 104-105)
            Wilber continuará a descrição da trajetória do eu desde a diferenciação do corpo ante a matéria circundante até a transformação da alma no Espírito; para nossos propósitos, porém, a análise precedente bastará se restar claro que o domínio mental não é o último da escalada de desenvolvimento humano.
            O esforço grego de diferenciação do mito na filosofia não foi bem sucedido socialmente; parece-nos que o domínio mítico da existência humana sempre será mais poderoso que o filosófico do ponto de vista social – algo que o próprio Platão percebeu, uma vez que inventava mitos para a explicação de etéreas realidades filosóficas.[11] Socialmente, a filosofia pode ter influência marcante apenas se aceita participar de uma proposta religiosa de salvação que perpassa e passeia pelos diferentes níveis do desenvolvimento humano.
            Como lembra Marco Pallis, o mito não se deixa aprisionar por dogmas e doutrinas, facilitando a comunicação de verdades que de outro modo poderiam ser debilitadas pelo escrutínio estéril de especialistas.[12] Ou, como diz Píndaro, “a fábula e suas ficções engenhosas têm sempre tido mais apelo sobre o coração dos pobres humanos que a linguagem simples da verdade, e a poesia, que a tudo embeleza, soube emprestar aos fatos mais incríveis a aparência da realidade”. (PINDARE, I, tradução minha)
            Não concordamos, porém, com Pallis quando afirma que a história mítica “era necessariamente tida como verdadeira”. Certamente os gregos tinham dúvidas sobre a veracidade histórica de seus mitos, muito embora, como diremos a seguir, tirassem deles grande proveito moral-espiritual.
            Assistindo à história de Hamlet, a rainha Elizabeth não precisava se perguntar se ela tinha acontecido de fato ou não. Bastava-lhe a verdade da própria história, ou seja, o impacto imaginativo que ela causava. Ulisses se vê na história que Demódoco conta.
            Tampouco a peça, como outras obras literárias, é tratada hoje como mero “entretenimento”. Não perdemos de todo a noção de que a literatura forma o imaginário moral de um homem.
            Vale-nos aqui Mário Ferreira dos Santos: “Essas ficções não têm correspondência enquanto tais, em sua forma, a realidades históricas, mas a diversas realidades históricas (D. Quixote tem um pouco de cada homem e de todos os homens, mais deste do que daquele, etc)”. (SANTOS, Noologia geral, p. 219)
            Em seguida ele diz: “Podemos compreender, portanto, esquemas que correspondem a uma combinação do real-ficcional com o real-histórico, o que nos permitiria, então, considerá-los gradativamente”. (SANTOS, Noologia geral p. 218)
            Ao contar um fato, o narrador, por definição, o torna uma história e introduz o elemento ficcional-imaginativo. Porque para ser aceito como fato, a situação narrada, chamemo-la assim, precisa antes ser aceita como possível. E para isso, precisa corresponder, sob aspectos variados, a situações já devidamente imaginadas, através das quais se a reconhece. A peça Hamlet consegue impactar o espectador porque ele enxerga a possibilidade de que um príncipe queira retomar o trono de seu tio usurpador e que, confuso, ele hesite em fazê-lo.[13] Ele fica impactado porque reconhece esse modo de agir, ou melhor, a potencialidade desse modo de agir na natureza do homem, de um e outro homem em particular. O ouvinte da história terá que fazer uma regressão imaginativa e pinçar de sua experiência os eventos que a história suscita, fazendo uso da função fantástica da mente (phantasia), como Aristóteles a entendia.[14]
            Em resumo, portanto: ao ser discursado, o real ganha necessariamente contornos ficcionais.[15] Ulisses vira lenda no canto de Demódoco. Ele se vê e chora.

                       
           









Ulisses na corte de Alcino, de Francesco Hayez

Por isso, aliás, jovens precisam de estruturas imaginativas, sem as quais não poderão saber, nem se trata de compreender, mas de saber mesmo, que determinados eventos e atitudes acontecem, porque ficariam incapazes de vê-las na imaginação. Não as tendo, passarão batidos por situações vivas e complexas, as quais são como se não existissem, porque não conseguem reconhecê-las. Se não se esforçarem por desenvolver o aparato imaginativo pelo qual podem reconhecê-las, essas situações vivas e complexas, porventura pessoalmente importantes, serão uma fonte de desgaste psicológico, uma vez que o ego não achará seguro sua emergência à consciência e reprimi-las-á. Neuroses coletivas de um povo existem. Basta o fingimento de que uma situação política relevante não esteja acontecendo seguido de sua gradual redundância em esquecimento. Neurose é o resultado do processo de falsificação de uma situação desconfortável (se não fosse desconfortável não se teria fingido que ela não existia) na qual se acredita ainda.[16]
Que seu grau de percepção de determinados fenômenos esteja afinado ou em queda um filósofo percebe logo; no jovem, entretanto, ele está à espera de ser ativado: é a ótima sensação que um primeiro contato com o maravilhoso da filosofia e da poesia causa. O espanto e a admiração deveriam ser o impulso inicial da atividade filosófica, não a paralisia em que Sócrates, reclamava-lhe Mênon, deixava-o com suas aporias.
            Cremos que o mito serve para evocar e incentivar certas realidades no homem. Uma vez, porém, que essas realidades já são parte de sua experiência viva, o mito deixa de ter o apelo de lembrá-las ao homem. Nesse momento, ele pode querer saber em que consiste aquela realidade: “Quid est...?” Surge, então, a filosofia. A definição mesma das realidades aludidas no mito pode também revelar outras possibilidades que não se percebia antes, desacreditando-o, portanto, em alguma medida pelo menos. Além de sua função coletiva -- todo mundo já foi criança e deles precisou --, o mito pode, entretanto, continuar a municiar a imaginação com possibilidades de compreensão. Os gregos não davam muita bola para seus deuses, mas não recusavam as histórias morais que os mitos encerravam.
            A filosofia é a técnica de enxergar diversos pontos de vista sobre um tema, circundando-o trezentos e sessenta graus, notando e vivenciando como suas as opiniões mais díspares dos sábios e dos agentes, vendo que significados tinham para eles a ponto de endossá-las, para então procurar enxergar sua raiz comum, seu centro irradiador, sua unidade; a filosofia é por excelência a busca da unidade, entre qualidade e quantidade, entre fatos e valores, entre as opiniões mais aparentemente contraditórias, não uma unidade falsa, artificial, mas a unidade presente nas premissas inconscientes que emanam destas opiniões; ela é um trabalho de anamnese, de rastrear as origens dessas opiniões, para ver se tem, ou se não tem, superfícies de contato, para ver se falam da mesma coisa e, em sendo assim, se se sustentam ante um horizonte mais amplo de visão, que as qualifica como certas sob um ponto de vista, relativo sempre, mas verdadeiro.
            Morihei Ueshiba, o fundador do Aikidô, mandaria “contemplar as obras do mundo, ouvir as palavras dos sábios, e pegar tudo o que fosse bom para si. Tendo isto como fundamento, abrir as próprias portas para o verdadeiro.” “Não despreze a verdade que está debaixo de seu nariz”, dirá.
Se a filosofia é uma técnica, não o é menos o amor.
            O amor e a filosofia chegam mesmo a ser muito parecidos, uma vez que o amor não é um mero ato de vontade, ele precisa entender o próximo, para amá-lo realmente, e não apenas declarar seu sentimento.
E o método para isso é colocar-se em seu lugar, tentar ver as coisas da maneira que ele vê. “O amor nasce apenas de uma compreensão enérgica dos motivos e sentimentos do vosso próximo”.
“O amor é o desejo de fazer bem aos outros”, diz o Livro de Urântia. Mas o amante não pára no desejo, ele pratica seu amor. O caminho de amar ao próximo pode muito bem ser ajudado pela técnica de como fazê-lo. E quem melhor que Jesus, o ser humano mais amoroso que houve, para nos ensinar como amar o próximo?
            Antes, porém, precisamos descobrir o que é o bem.
            Bem é a participação na perfeição divina. Daí que Jesus exorte: “Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito”. A bondade nasce do relacionamento da criatura com o Pai, e resulta numa apreciação progressiva de valores e sua unificação com a experiência vivida no dia-a-dia. Ela se relaciona às vivências e escolhas pessoais de aceitar com sabedoria a luz do Pai. Porque uma pessoa busca a bondade – o bem refere-se à unidade suprema, lembram-se de Platão? – ela discerne progressivamente a verdade e a beleza, e então só lhe falta unificar esses elementos num ideal de serviço divino. “Quem faz o bem a um desses pequeninos, a mim o faz”. Rosenstock dirá que o “bem não “é”, exceto por propagação. Não está em nenhum homem, mas se origina apenas entre professor e aluno, entre pai e filho, entre o Pai maiúsculo e seus filhos, completo. “Exatamente como as crianças são procriadas, os dons do espírito, a fertilidade da bondade, o contágio do entusiasmo, a fecundidade do pensamento (...),” são “processos que emergem para a vida entre pessoas”. (ROSENSTOCK-HUESSY, 2001, p. 26)
            Jesus era bastante amado por seus apóstolos e seguidores, em geral. O amor também tem a característica de facilitar o amor, como disse Tomás Melendo.
            Jesus era assertivo e até ríspido se preciso, mas sempre deixava o outro escolher. Em momento algum de seu julgamento, seja ante o sinédrio ou perante Pilatos, ele fez uso de sua oratória para persuadi-los de que cometiam um erro, mas esteve pronto, sempre, a falar a algum de seus acusadores que desejasse sinceramente saber como proceder. Pilatos quase chegou a escutar Jesus, mas, covarde, vacilou nas horas decisivas.
            Jesus podia chamar a Pedro de Satanás, ou de hipócritas a certos fariseus, ou seja, ele não era delicado quando sê-lo implicasse fraqueza. Nunca hesitou em ser severo com os homens, quando a ocasião demandava tal disciplina.[17] Era firme na devoção de fazer a vontade do Pai.
            Como saber a vontade do Pai, para fazê-la?
            Vai aqui minha experiência pessoal. Guie-se pelo Ajustador do Pensamento, mas nunca ao preço de criar ansiedade para si. Ele não fala com você -- não como um colega seu fala -- mas lhe mostra, a cada momento, o que é possível fazer. Na realidade, perguntar-se sobre qual é sua vontade já significa estar realizando sua vontade[18].
            Além de bom, Jesus procurava ser gracioso, doce e amável. “A bondade torna-se eficaz apenas quando é atraente.” (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 171, 7, p. 1874) No capítulo sobre Natanael, o apóstolo com quem eu mais me pareço, Jesus diz que veio para que “meus irmãos na carne tenham alegria e vida de maneira mais abundante”.
            Sua ingenuidade absurda -- “Por que me chamam de bom”? -- faria muitos se perguntarem quem era esse homem tão bom, que nenhuma autoridade do bem disputava para si, surpreendendo-se de que não soubessem que o Pai é que o era. “Os últimos serão os primeiros”.
            Ele procurava ser compassivo, mas sem participar de uma autocomiseração, a qual pode trazer inação. Jesus procurava construir junto com o outro. Costumava pedir ajuda ao outro como forma de ajudá-lo, acionando o seu altruísmo.[19] “Esse mesmo Deus que declara não ter necessidade de nos dizer se tem fome, não tem pudores de mendicar um pouco de água à samaritana. Ele tinha sede... “Mas ao dizer “dê-me de beber” era o amor da pobre criatura que o Criador do universo reclamava.” (Lisieux, Oeuvres completes, pp. 220-221, tradução minha)
            Dissemos acima que Jesus não seria polido em qualquer ocasião. Mas ele era delicado o bastante para deixar o próximo à vontade, sem manifestar curiosidade para saber de sua vida; menos ainda constrangê-lo ou coagi-lo-ia de alguma maneira. Jesus respeitava o coração dos homens: se desejassem algo, ele já o teria percebido antes que precisassem dizê-lo, se não quisessem servir ao bem, pouco importaria alardear querê-lo aos quatro ventos. Jesus conhecia o coração dos homens e respeitava seus desejos, bons ou ruins. Era sua escolha de realizar ou não a vontade do Pai.
            Jesus fazia o bem “enquanto passava”, sem emprestar muita cerimônia ao que fazia ou dizia de bom, como algo corriqueiro junto às atividades diárias. Ele sabia do que o próximo precisava antes mesmo que o dissesse, porque enxergava sua experiência de vida através de seus próprios olhos.
É assim que se pode rezar inclusive, não é nem preciso pedir, uma vez que o necessário para si já o sabe o Pai, e ele nem precisa que nós peçamos para no-lo dar, basta que queiramos junto com ele. Que agradecemos. Que o critiquemos, que o xinguemos, se for o caso, mas que nos comuniquemos com ele. É o que ele quer. Pode xingá-lo.
            “O maior amor que existe é dar a vida por seus amigos”, Jesus disse e chegou a realizá-lo, por amor a seus inimigos inclusive[20].
            Mais importante que descrever o amor é vivenciá-lo[21], assim como para o médico é mais importante curar seu paciente do que se ver às voltas com rótulos diagnósticos.[22] Cumpre recordar um Whittaker Chambers mais velho, lamentando que seus amigos Quaker não tenham tido mais compreensão com ele, antes que se tornasse um comunista:
"The first friend I was J. Barnanrd Walton, a pleasant, business-like Quacker, who was then, I believe, the head of the Service Committee. I stayed in Philadelphia several days, meeting other Friends and canvassing the possibilities of my going to the Soviet Union. A new and enormously tranquilizng spirit enveloped me. It emanated from those quiet presences whom I met, from the chaste Quacker rooms with their plain and fine proportions, or simply from the sound of the plain language, as voices akesd me: "How is thee, Whittaker Chambers?" The 17th form was still touched with the sweetness of the Middle Ages. This is my natural home, I thought. I wanted nothing so much as to remain in it.
Then the story of my Atheist play reached Friends. There was a horrified reaction. I received one of those letters, such as only Quackers can write, which, in the most restrained language, said in effect: "You are outcast."
It was an invisible turning point in my life. If, at that moment, one Friend had said: "Sit down with me and tell me, what have you in your heart," this book need never have been written. (...)
At the time, I felt only a stinging sense of rejection. I asked myself bitterly: "Where in Christendom is the Christian?"
            Corta meu coração escutar histórias como esta. Como falta caridade a cristãos apegados à lei que Jesus não aboliu, mas transcendeu misericordiosamente. Na verdade, o Whittaker Chambers mais velho que escreveu Witness sabia que seus amigos Quakers morriam de medo de expor suas crenças às perguntas e objeções, embora sinceras, de um ateu, por isso camuflaram com ortodoxia suas inseguranças e incertezas. Ele entendeu isto e os perdoou.
Não importa se a pessoa acredita ou não em Deus nominalmente, desde que acredite na realidade do bem, no Ajustador do Pensamento, quer saiba disso ou não. E mesmo que esteja confusa, sobre se acreditar ou não em Deus é bom para ela, desde que esteja buscando. E, se não estiver, que siga seu caminho e vá com fé. Porque “cada mortal que, consciente ou inconscientemente, esteja seguindo o guiamento do seu Ajustador residente, está vivendo de acordo com a vontade de Deus”. (LU, doc. 107) E “quando a mente é dotada, desse modo, pela ministração do Espírito Santo, ela possui a capacidade para escolher (consciente ou inconscientemente) a presença espiritual do Pai Universal — o Ajustador do Pensamento”. (LU, doc. 34)
            Por fim, lembrar de ver as motivações do próximo, claro.
“Jesus amou tanto os homens porque atribuía a eles um valor muito elevado. Vós podeis melhor descobrir os valores dos vossos companheiros, descobrindo a sua motivação. Se alguém vos irrita, causando a sensação do ressentimento, deveríeis buscar discernir compassivamente o seu ponto de vista e as suas razões para uma conduta de tal modo censurável. Uma vez que tenhais compreendido o vosso semelhante, vos tornareis tolerantes; e tal tolerância amadurecerá a amizade transformando-a em amor”. (LU, doc. 100)




[1] Dentro de uma esfera de variância, claro, além da qual a pessoa não entendeu do que se estava falando, o que é o que acontece, aliás, quando se quer alegorizá-la sem humildade poética. Alegorizar o símbolo, caso à parte a poesia às vezes, é colonizar a mente alheia (e a própria).
A humildade poética sabe ser individualíssimo o seu entendimento, que existe sob um certo aspecto num determinado momento.
[2] Comentando os seguintes versos de Vinícius: “Fico ali respirando o cheiro bom do estrume / Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme” (Soneto de intimidade).
[3] Eles e suas contrapartes no século XX que negavam absolutamente valor à razão.
[4] Os noditas eram descendentes dos assessores extraterrestres do príncipe Caligástia.
[5] Conferir MARIANI, 2009
[6] Madura aqui não bastará ser adulta. Há atores de novelas que interpretavam vilões os quais relatam terem sido agredidos na rua. Não são só crianças que não sabem diferenciar a ficção da realidade. 
[7]           Sobre o tema dos poetas na República, conferir MOTTA, 2010, pp. 81-92.
[8]           Não se creia que a academia fechada por Justiniano fosse a mesma inaugurada por Platão. Esta foi destruída em 86 AC, quando Sulla sitiou a cidade de Atenas durante a primeira guerra mitridática. Filo de Larissa, o último escolarca da Academia, o equivalente a seu reitor, transferiu-se para Roma, onde deu palestras assistidas pelo jovem e entusiasmado Cícero.
[9]           “As translationes studiorum são movimentos históricos e socioculturais de translação de manuscritos, conhecimentos, filosofia e ciência” (COÊLHO, 2008) de um lugar para outro.
[10]          Ver O'Leary, Chapter V, 5.
[11]          Torcemos com Wilber pela eminência social do domínio transpessoal sobre o mítico, como ele os entende. É ótimo que os arquétipos tenham uma conotação mais marcante de sabedoria do que de mero antropomorfismo. Melhor, entretanto, é quando ambas as conotações podem ser unidas, como na figura do Pai Divino, que, muito mais do que poderia um mito – novamente conforme a terminologia wilberiana –, encerra uma realidade em si simbólica, como tal acessível ao homem em qualquer fase do desenvolvimento de sua personalidade. “Quando tudo estiver dito e feito”, aqui o gran finale do Livro de Urântia, “a idéia de um Pai será ainda o conceito humano mais elevado de Deus”. (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 196, 3, p. 2097) O homem agradece pela intuição simples carregada de sabedoria e amor.
            Sobre os significados distintos de arquétipo na filosofia clássica e na psicologia de Jung, conferir WILBER, 2001, 217-219.
[12]          Mais do que isso:
            “O “sentido mitológico”, um dos fatores da inteligência humana, corresponde a toda uma dimensão     da realidade, a qual, sem esse sentido, manter-se-á inacessível.” (PALLIS, 2003, tradução de     Miguel Conceiçâo)
[13]          Refiro-me a Hamlet, que respirou o ar podre no reino da Dinamarca.
[14]          Conferir livro III, 3, da obra De Anima.
[15]          Porque ele será imaginado, e as “imagens são, em sua maior parte, falsas”. (ARISTOTLE, On the Soul, Book 3, part 3, tradução minha). Aristóteles só errou por modéstia, as imagens são, por definição, falsas, no sentido de que são uma ficção; aquela ficção-real de que nos falou Mário Ferreira dos Santos acima, isto é, ficção com fundamento maior ou menor no real. Mesmo a imagem de um unicórnio, só conseguimos construí-la valendo-nos da imagem de entes reais.
[16] Essa falsificação é parte consciente, parte inconsciente, muito embora a própria pessoa não consiga admiti-lo, ou mesmo lembrar que em parte a quis. A lembrança da intencionalidade da falsificação só ocorrerá com a lembrança dos seus motivos. Porque então a pessoa está justificada ante sua consciência. É preciso uma misericórdia divina conosco mesmos no processo de descobrir por que agimos como agimos. A autoimposição de rigores morais excessivos ainda é um disfarce contra o autoconhecimento.  Responsabilidade é assumir (perante nós mesmos, não necessariamente perante o mundo) o que ocorre (nem mais nem menos) em virtude de nossa ação.
[17] Ecoa-me Rui Barbosa:
            “O Padre Manuel Bernardes pregava, numa das suas Silvas:
“Bem pode haver ira, sem haver pecado: Irascimini, et nolite peccare. E às vezes poderá haver pecado, se não houver ira: porquanto a paciência, e silêncio, fomenta a negligência dos maus, e tenta a perseverança dos bons. Qui cum causa non irascitur, peccat (diz um padre); patientia enim irrationabilis vitia seminat, negligentiam nutrit, et non solum malos, sed etiam bonos invitat ad malum. Nem o irar-se nestes termos é contra a mansidão: porque esta virtude compreende dois atos: um é reprimir a ira, quando é desordenada; outro, excitá-la, quando convém. A ira se compara ao cão, que ao ladrão ladra, ao senhor festeja, ao hóspede nem festeja, nem ladra: e sempre faz o seu ofício. E assim quem se agasta nas ocasiões, e contra as pessoas, que convém agastar-se, bem pode, com tudo isso, ser verdadeiramente manso. Qui igitur (disse o Filósofo) ad quae oportet, et quibus oportet, irascitur, laudatur, esseque is mansuetus potest.”
Nem toda ira, pois, é maldade; porque a ira, se, as mais das vezes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necessária, constitui o específico da cura. Ora deriva da tentação infernal, ora de inspiração religiosa. Comumente se acende em sentimentos desumanos e paixões cruéis; mas não raro flameja do amor santo e da verdadeira caridade. Quando um braveja contra o bem, que não entende, ou que o contraria, é ódio iroso, ou ira odienta. Quando verbera o escândalo, a brutalidade, ou o orgulho, não é agrestia rude, mas exaltação virtuosa; não é soberba, que explode, mas indignação que ilumina; não é raiva desaçaimada, mas correção fraterna.” (BARBOSA, 1921)
O sentimento de indignação moralista que move o brasileiro contra a corrupção deve bastante, decerto, a Rui Barbosa – na continuação desse trecho transcrito da Oração aos moços ele referir-se-á especificamente à corrupção. Não considero o sentimento ruim, mas quando sobrepuja toda e qualquer discussão política pode fazer mais mal que bem. Ter que se indignar a toda hora, o tempo todo, é esquecer-se de reconhecer e desfrutar o que de bom eventualmente esteja acontecendo, é muito chato, na realidade.
[18] Encontrei hoje, dia 13/10/2015, a seguinte passagem do Livro, que corrobora este entendimento: “Se quiserdes realmente encontrar Deus, esse desejo é em si evidência de que já O encontrastes”. (Doc. 130)
[19] Como o anjo ajuda Bailey no filme ‘Felicidade não se compra’, à exceção de que Jesus, suponho, não explicaria que estava querendo ajudar, a pessoa teria que adivinhar por si.
[20]          Jesus não é o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, imolado para pagar nossos pecados, mas, verdadeiramente, é um salvador.
[21]          “Um homem bom e nobre pode amar de um modo consumado à sua esposa, mas pode ser totalmente incapaz de passar satisfatoriamente em um exame escrito sobre a psicologia do amor marital. Outro homem, tendo pouco ou nenhum amor pela sua esposa, poderia passar nesse exame de um modo bastante aceitável. A imperfeição do discernimento daquele que ama sobre a verdadeira natureza do ser amado em nada invalida, seja a realidade, seja a sinceridade do seu amor.” (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 103, 8, p. 1140)
[22]          Como disse Hahnemann: “The physician's high and only mission is to restore the sick to health, to cure, as it is termed.” (HAHNEMANN) Essa primeira frase de seu Organon era a exortação ao médico para que não rechaçasse de antemão, sem conhecê-las, terapias que pudessem curar o paciente, como a da homeopatia, que Hahnemann apresentava neste estudo.